A gênese do desejo mimético

René Girard[1] tematizou o desejo mimético como base da violência entre seres humanos que potencialmente conduz a espirais sem fim de vingança de morte. O desejo mimético que se refere a objetos conduz a conflitos porque mais de uma pessoa deseja ou apetece o mesmo objeto. Segundo René Girard, a instituição do sacrifício tinha historicamente a tarefa de amansar, dominar, reduzir a violência ubíqua que resulta do desejo mimético, e que só o direito moderno substituiu e com isso superou o sacrifício.

Segundo Jung Mo Sung[2], o desejo mimético é também a base do mercado capitalista ou mais geralmente da modernidade. Se trata do “desejo mimético de consumo, ou, em termos de René Girard, desejo mimético de apropriação. Este tipo de desejo mimético está no centro da própria modernidade na qual vivemos. A modernidade se caracteriza pelo mito de progresso […]” (53). O desejo mimético faz com que uma maioria da população imite a elite, em outras palavras, aspire a ter as coisas que ela tem, assim que “a chave deste progresso tecnológico está no desejo mimético” (54). Assim, o sistema inteiro da economia de hoje se baseia no desejo mimético (54-66). Incluso Fr.v.Hayek, ideólogo do neoliberalismo, admite, como Sung destaca, que as pessoas das camadas mais atrasadas no desenvolvimento econômico desejam e aspiram ter as coisas que os indivíduos das camadas mais avançadas têm. Apesar que segundo René Girard o sistema jurídico substituiu o sacrifício (64), hoje em dia, como diz Sung, se realiza o sacrifício em outro lugar: os pobres e a satisfação das suas necessidades (básicas) são sacrificados (54-66).

Então, parece que o chamado desejo mimético pode explicar a aspiração motivante dos sujeitos do capitalismo por ter, possuir cada vez mais coisas – ou também a abstração de coisas, dinheiro. Porém, a minha crítica a René Girard e a Jung Mo Sung é que o desejo mimético não simplesmente explica os fenômenos, mas por sua vez precisa de uma explicação (não se trata só de um explicans mas de um explicandum).

 

Tentativa de explicação

 

Baruch Spinoza explica os afetos básicos desde o conatus, o que é a aspiração de cada “coisa” (“res” em latim)[3] de permanecer no ser, na existência[4]: O conatus é a aspiração com a qual cada coisa/sujeito aspira a permanecer no seu ser (conatus, quo unaquaeque res in suo esse perseverare conatur). Quando o conatus se refere ao corpo e à mente ao mesmo tempo, se denomina de appetitus (inclinação/impulso). No que se refere à consciência do appetitus, se trata da cupiditas (desejo/cobiço). A cupiditas (cobiço) é o appetitus (impulso) sob o aspeto que se está consciente dele. Os três afetos básicos segundo Spinoza são por conseguinte a já dita cupiditas e em consequência a laetitia (alegria) e a tristitia (tristeza). A laetitia acompanha o sucesso de permanecer no ser, no aumento do poder de atuar (potentia agendi) e de pensar (mentis nostri cogitandi potentia); e a tristitia acompanha o insucesso ou o sucesso diminuído do permanecer no ser e a diminuição do poder de atuar e de pensar.[5]

O que é a necessidade? O sociólogo peruano Fernando Vidal desenvolve no texto “Exclusión social, modernidad y reconciliación”[6] uma teoria das necessidades que abarca – para aqui só esboçar o tema elaborado pelo autor indicado – dialeticamente uma área desde o mais rudimentar até o mais complexo. A necessidade inclui tanto os aspetos da atividade humana, do trabalho, dos atos, então o ser, viver como processo, quanto os aspetos de ter, ter não só os produtos para a vida diária, mas também direitos e contatos sociais. Sempre a necessidade se refere à totalidade da vida natural, cultural e social e ao sentido.

Para colocar a necessidade em relação com as categorias de Spinoza, é de constatar que ela é o appetitus específico do ser humano. Se trata do conatus, da aspiração do ser humano de permanecer no seu ser em todos os aspetos da vida humana, referindo-se ao corpo e à mente ao mesmo tempo, corpo e mente entendidos nos sentidos tanto individual quanto social.

Mas o que é o desejo? O desejo é a cupiditas específica do ser humano. O desejo é então a necessidade sob o aspeto que se está consciente desta.

Vejo criticamente a maneira como Hugo Assmann e Jung Mo Sung[7] distinguem entre necessidade (o que se precisa para viver) e desejo (no sentido unilateral de preferência arbitrária de sujeitos no mercado) e a separação dicotômica que Jung Mo Sung faz entre necessidade e desejo[8]. Porque criticam a aplicação do desejo no mercado sem tematizar a alienação do desejo humano.

Se, como suponho, o desejo é a necessidade mesma sob o aspeto da consciência dela, a pergunta ardente e consternante a ser respondida será por quê o desejo, sendo ele o afeto básico humano e fonte da alegria e da tristeza, se transformou e reduziu a um desejo limitadamente dirigido a meros objetos, a produtos de trabalho a serem apropriados e consumidos. Deve de ter acontecido uma inversão dos afetos humanos.

Desde a teoria de Spinoza se pode concluir que os afetos básicos de um ser vivo se referem à preservação e á continuação da vida deste ser (conatus). Além disso, no que se refere ao ser humano e a sua essência social, é de supor que os afetos compartilhados se referem à preservação e á continuação da vida da comunidade, – e ulteriormente à continuação da vida na relação entre ser humano e natureza (onde começa a experiência religiosa) etc….. Isto deve de incluir todos os aspetos da vida, todas as atividades nas duas qualidades: tanto nos aspetos da vida vivida, o desgaste de energia, os movimentos corporais, mentais, espirituais e muito mais (natura naturans [natureza naturante: natureza em processo]), quanto no aspeto de trabalho, ou seja o aspeto da atividade de produzir uma estrutura de energia potencial que possibilita a continuação da vida vivida, físicamente dito da energia cinética (sendo o trabalho a aplicação da natura naturans para a produção de natura naturata [natureza naturada: natureza como qualidade feita, como resultado de um processo]. É de supor que os desejos básicos do ser humano se referem em primeiro lugar ao conjunto das atividades em relações sociais que constituem a vida como processo, e só em segundo lugar, ainda que necessariamente, aos objetos e a cuja produção que são necessários para poder continuar a vida vivida como processo.

Uma inversão dos afetos começou provavelmente junto com a dominação da natureza, à redução da natureza a um objeto de exploração, deixando ao lado a percepção da natureza como sujeito e da relação entre ser humano e natureza como relação social (como até hora se vê entre povos indígenas[9]). Isto começou com a agricultura em grande envergadura com a qual se iniciou o processo do ser humano de explorar o trabalho da natureza cada vez mais. Se começa a reduzir as atividades da natureza ao trabalho que produz um resultado o qual é uma estrutura de energia potencial, ou seja alimento neste caso, deixando ao lado (ou produzindo como não existente, como diria Boaventura de Sousa Santos[10]) o outro aspeto das atividades da natureza: a vida vivida, as ressonâncias[11].

Junto com o poder aumentado sobre o trabalho da natureza (ou sobre a natura naturans potencial o que é a força de trabalho da natureza) surge um grupo de pessoas que guarda os excedentes de coisas as quais consegue obter com uma quantidade diminuída de trabalho próprio, e isto significa ao mesmo tempo, por meio de uma quantidade diminuída de vida vivida, de energia gastada. Este grupo vai desenvolver um desejo crescente que se refere às coisas/aos produtos e vai ao mesmo tempo diminuir e suprimir o desejo que se refere às atividades da vida vivida em relações sociais. Na medida na qual uma elite dirige os seus afetos e desejos unicamente à possessão de produtos de trabalho, vai desenvolver o conceito de propriedade que se refere aos produtos mesmos e aos seus pré-requisitos que são a força de trabalho da natureza (a terra) e a força de trabalho do ser humano. Vai escravizar tanto a natureza quanto o ser humano e reduzir as suas atividades à qualidade de produção de coisas deixando ao lado a qualidade de vida vivida em relações sociais.

Isto é a gênese do desejo que se dirige só a coisas, objetos. Todos os afetos da vida vivida e das relações sociais, tanto os entre os seres humanos, quanto os entre ser humano e natureza, são reprimidos, oprimidos. Mas, como Freud elaborou, os afetos oprimidos, suprimidos não desaparecem simplesmente, mas mudam na sua forma. Inconscientemente se projeta o conjunto dos afetos, desejos, emoções que são conectados com a vida vivida e as relações sociais, agora a coisas, a produtos de trabalho humano e de trabalho da natureza. Isto deve de ser a origem do ídolo, do fetiche. E aqui se deveria encontrar a origem do desejo mimético que se refere exclusivamente a objetos. Porque depois de tal inversão dos afetos, o ser humano nos objetos / nos produtos de trabalho, e – mais tarde na história – no dinheiro (abstração dos produtos, ou seja das estruturas com energia potencial), o conjunto da vida vivida, das relações sociais, a vida do cosmo inteiro e a sua própria vida (do sujeito). Ele vê o cúmulo da vida nas coisas da riqueza material, da vida que ao mesmo tempo é oprimida, aniquilada. Se enxerga incluso Deus em forma invertida, negada no produto, e depois no dinheiro. Se vai ansiar a posse de produtos (do trabalho da natureza e do trabalho do ser humano, natura naturata feita por natura naturans), mas este anseio nunca pode ser saciado porque a vida permanece excluída socialmente. Isto pode explicar por que o desejo mimético gere uma violência na qual povos lutam como se se tratasse de vida e morte.

Todo este processo se agravou a partir do século 16, com a colonização de uma parte grande do planeta Terra. Francis Bacon formulou uma utopia de uma humanidade que se caracteriza de uma posse e de um poder cada vez maior os quais se baseiam na disposição ou no controle do trabalho potencial da natureza, ou seja da força de trabalho da natureza.[12]

Depois da derrota da guerra dos camponeses no século 16 na região da Alemanha de hoje, se oprimiu a vida popular, social, também sensual do povo comum. No protestantismo especialmente, segundo Max Weber se oprime o “gozo dos prazeres da vida”[13]. De maneira comparável, na missão dos povos indígenas nas Américas, se oprimia a vida social, espiritual e sensual deles, se quebrou os seu corações. Tudo isto ajuda a dirigir os afetos, os desejos, as emoções, a espiritualidade, já mutilados, a meras coisas, a produtos de trabalho. Assim se produz a “religião do capitalismo” (Walter Benjamin).

Por isso defendo que o desejo é o afeto integral motivante humano, a cupiditas humana, e o desejo mimético que se dirige a produtos ou a coisas foi produzido socialmente no percurso da história humana em decorrência da dominação da natureza.

 

[1]René Girard: A violência e o sagrado, São Paulo: Paz e Terra. 1990.

Hugo Assmann (organizador): Götzenbilder und Opfer. René Girard im Gespräch mit der Befreiungstheologie. LIT Verlag Münster-Hamburg 1996 (edição original em português 1991).

[2]Jung Mo Sung: Desejo, Mercado e Religião, Petrópolis 1998.

[3]Se trata tanto de ‘objeto’ quanto de ‘sujeito’, porque Spinoza não aceita de maneira alguma a separação da realidade em coisa pensante e coisa extensa segundo Descartes (nas Meditações [Descartes: Discurso Do Método. As Paixões Da Alma. Meditações. Objeções e Respostas. São Paulo 1996]), mas explica res cogitans e res extensa como dois atributos da mesma realidade.

[4]Baruch de Spinoza: Ethik in geometrischer Ordnung dargestellt, latim e alemão, traduzido e organizado por Wolfgang Bartuschat, Hamburg 2007, p. 240, Teorema 8.

[5]Ibid. p. 243, teorema 11; p. 245.

[6]Fernando Vidal: Exclusión social, modernidad y reconciliación. Peru 2016.

[7]Hugo Assmann: Clamor dos pobres e “racionalidade” econômica, São Paulo 1990; J. M. Sung: a obra já citada.

[8]Jung Mo Sung: Desejo, Mercado e Religião, p. 68.

[9]Eduardo Viveiros de Castro: Perspectivismo indígena, em: Instituto Socioambiental (ISA): Visões do Rio Negro – Construindo uma rede socioambiental na maior bacia [cuenca] do mundo, São Paulo 2008, pp. 84-90.

Idem: A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia, São Paulo 2006 (primeira edição 2002), pp. 459-472.

[10]Boaventura de Sousa Santos: Die Soziologie der Abwesenheit und die Soziologie der Emergenzen: Für eine Ökologie der Wissensformen (traduzido do espanhol por W. Jantzen), in: Willehad Lanwer, Wolfgang Jantzen: Jahrbuch der Luria-Gesellschaft 2012, Berlin 2013, pp. 29-46.

[11]Acoplamento estrutural espaçotemporal entre oscilações de diferentes sistemas/seres vivos.

[12]Francis Bacon: Novum Organum ou Verdadeiras Indicações acerca da Interpretação da Natureza. Nova Atlântida, São Paulo 1999.

[13]Rogério Pamponet Rodrigues: Palestra na Universidade Batista de São Paulo no 24 de outubro de 2016.

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